Evento em São Paulo destaca a necessidade de estruturar processos, cultura e arquitetura para escalar inteligência artificial com segurança – A Brick, insurtech especializada em automação antifraude e subscrição com inteligência artificial, realizou nesta quarta-feira (08), em São Paulo, a primeira edição do Brick Sessions. Com o tema “IA em seguros: governança, risco e controle”, o encontro reuniu executivos de tecnologia, risco e inovação de grandes companhias de seguros para discutir como estruturar o uso da IA em operações complexas, com segurança, eficiência e responsabilidade.
O painel central trouxe representantes da Brasilprev, Porto Seguro e Sompo, que compartilharam experiências práticas sobre a implementação da tecnologia, da definição de modelos à arquitetura e monitoramento. Entre os consensos, esteve a necessidade de repensar a lógica operacional do setor: diferente das automações tradicionais, a IA introduz decisões probabilísticas, exigindo novos níveis de governança, controle e responsabilização. Nesse cenário, a governança deixa de ser suporte e passa a ocupar papel central na operação.
Para Vinicius Schroeder, CEO da Brick, essa mudança redefine a forma como o seguro toma decisões. “Ao migrar de um modelo determinístico para um probabilístico, a previsibilidade diminui e a governança passa a ser essencial para garantir escala com segurança e responsabilidade”, afirma.
A transformação, no entanto, não é apenas tecnológica. Um dos principais pontos destacados foi a necessidade de ampliar o uso da IA para além dos times de TI, envolvendo áreas de negócio e promovendo letramento digital nas organizações.
“A gente só consegue escalar IA quando ela está distribuída na companhia. Na Brasilprev, criamos uma rede com 30 embaixadores de IA em diferentes áreas, que ajudam a identificar aplicações reais no dia a dia, mesmo sem serem profissionais técnicos”, diz Ana Bertholdo, cientista de dados da Brasilprev.
Complementando essa visão, Juliana Nascimento, Head of Risks, Compliance and Actuarial da Sompo, reforça que o avanço da IA exige um novo nível de preparo organizacional. “O letramento digital precisa ser contínuo e acessível a todos os times, não apenas às áreas técnicas. Estamos vivendo uma transformação semelhante à chegada da internet, e isso exige capacitação constante para que as pessoas entendam, utilizem e questionem a IA com responsabilidade. O setor de seguros está mudando rapidamente e essa evolução passa, necessariamente, pelo desenvolvimento das pessoas”, afirma.
Se por um lado a expansão da IA demanda cultura e capacitação, por outro, exige atenção aos riscos operacionais. Para João Marcos Menezes, Software Engineering Coordinator da Porto Seguro, o excesso de restrição pode gerar efeito contrário ao esperado. “Quando a empresa não estrutura o uso da IA, abre espaço para o uso informal, muitas vezes com ferramentas públicas e sem controle, o que pode expor dados sensíveis. Organizar esse uso é também uma forma de mitigar riscos”, explica.
Nesse contexto, a governança também ganha profundidade técnica. Eduardo Baumer, Superintendente de Tecnologia da Brasilprev, destaca a importância de estruturar mecanismos de observabilidade e definir claramente o apetite de risco em aplicações de IA. “Estamos lidando com sistemas que não são totalmente previsíveis, portanto, é fundamental acompanhar o comportamento dos modelos e entender, com precisão, onde estão as falhas, se na construção, no uso ou no contexto. A governança permite esse rastreio e a criação de protocolos de observabilidade. Em alguns casos, o próprio LLM pode atuar como um ‘juiz’, ajudando a identificar inconsistências e avaliar possíveis alucinações da IA, trazendo mais segurança para a evolução desses sistemas”, diz.
O encontro também reforçou a importância de fundamentos como qualidade de dados, aderência à LGPD, documentação de processos e monitoramento contínuo dos modelos, incluindo o uso de tecnologias para identificar inconsistências e reduzir riscos operacionais.
Como conclusão, o Brick Sessions evidenciou que a evolução da IA no setor de seguros passa menos pela adoção isolada da tecnologia e mais pela capacidade das empresas de estruturar governança, integrar áreas e desenvolver cultura. Escalar com eficiência exigirá equilíbrio entre inovação, controle e preparo organizacional, um movimento que já está em curso e deve definir o futuro do mercado.
Brick
A Brick é uma insurtech especializada em automação da análise de risco, subscrição e prevenção a fraudes com uso de inteligência artificial, que utiliza agentes de IA e tecnologia no-code para otimizar as tomadas de risco em seguradoras. Fundada em 2021, a empresa atende mais de 600 clientes, entre seguradoras e locadoras de veículos, e acaba de captar R$5 milhões em rodada seed liderada pelos fundos Honey Island by 4UM e Broom Ventures. Seu foco está em transformar os momentos de decisão de risco em um processo inteligente, contínuo e livre de dependência técnica.
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Brick Session – Da esquerda para a direita: Eduardo Baumer, Juliana Nascimento, Vinicius Schroeder, João Marcos Menezes, Ana Bertholdo e Guilherme Ninov, durante a primeira edição do encontro promovido pela Brick, em São Paulo