*Por Jeder Ribas, diretor da Velox Soluções Técnicas – O roubo de medicamentos durante o transporte representa um risco que vai além do prejuízo financeiro para as empresas. Quando uma carga farmacêutica desaparece, os impactos podem atingir distribuidores, transportadores, hospitais, clínicas e pacientes que dependem desses produtos. Em um setor que exige controle das condições de armazenamento, rastreabilidade e cumprimento de requisitos sanitários, a segurança logística precisa ser tratada como parte fundamental da operação.
Um estudo encomendado pela Associação Brasileira dos Distribuidores de Medicamentos Especializados, Excepcionais e Hospitalares (ABRADIMEX) junto à consultoria Overhaul revelou que os roubos de medicamentos e produtos farmacêuticos durante o transporte aumentaram 50% em 12 meses. No mesmo período, a participação desse segmento no total de cargas roubadas nas rodovias brasileiras passou de 2,2% para 3,3%.
O levantamento também apontou a concentração de 40% das ocorrências em cinco rodovias: Fernão Dias, Bandeirantes, Anhanguera, BR-277 e BR-116. Os números reforçam a importância de analisar os riscos associados às rotas e às características de cada operação, em vez de adotar medidas de segurança padronizadas para todos os tipos de carga.
Uma carga que exige cuidados específicos
Medicamentos e produtos farmacêuticos podem reunir características que os tornam especialmente atrativos para organizações criminosas, como alto valor agregado, facilidade de comercialização ilícita e demanda por produtos específicos. Entre os itens que merecem atenção estão medicamentos oncológicos, psicoestimulantes e canetas utilizadas em tratamentos para perda de peso, cuja movimentação exige cuidados compatíveis com o valor e as particularidades de cada produto.
A preocupação não se limita ao roubo em si. Depois de uma ocorrência, pode não ser possível garantir que os medicamentos tenham permanecido nas condições adequadas de armazenamento e transporte. A perda de rastreabilidade e a incerteza sobre a integridade dos produtos impedem que a carga seja tratada como se nada tivesse acontecido.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) alerta que produtos sujeitos à vigilância sanitária envolvidos em roubos, furtos ou extravios devem ser comunicados imediatamente pelo detentor do registro ou distribuidor à Agência e à Vigilância Sanitária local. A orientação considera que, após essas ocorrências, não há como assegurar as condições de transporte e armazenamento dos itens.
Existe, portanto, uma dimensão sanitária que amplia a gravidade desse tipo de crime. Além do impacto econômico para as empresas envolvidas, medicamentos desviados podem alimentar circuitos de comercialização irregular e representar riscos para quem os utiliza.
Casos recentes demonstram que o enfrentamento ao roubo de medicamentos não se encerra na localização do veículo ou na recuperação da mercadoria. A investigação dos fatos, a comunicação entre os envolvidos e a identificação dos possíveis destinos da carga também são etapas relevantes para conter os efeitos da atividade criminosa, que conta com esquemas especializados que movimentam milhões de reais e utilizam até mesmo empresas de fachada e redes de distribuição para reinserir os produtos no mercado.
Prevenção começa antes de a carga sair
A proteção de uma operação farmacêutica deve começar no planejamento do transporte. A análise de risco precisa considerar a origem e o destino, as rotas previstas, os pontos de parada, o perfil da carga, o valor envolvido e as condições específicas exigidas para o produto transportado.
O histórico de ocorrências nas regiões de passagem pode contribuir para a escolha de rotas e procedimentos. Da mesma forma, a definição prévia de protocolos de comunicação, responsáveis e medidas a serem adotadas diante de uma anormalidade ajuda a reduzir a improvisação em situações críticas.
A tecnologia tem papel importante nesse processo. Ferramentas de monitoramento permitem acompanhar o deslocamento e identificar desvios em relação ao planejamento. Entretanto, o valor dessas soluções depende da capacidade de interpretar os alertas e transformá-los em ações dentro do tempo necessário. Um sistema que identifica uma irregularidade, mas não aciona uma resposta adequada, tem sua utilidade limitada.
Por isso, a prevenção deve combinar recursos tecnológicos, procedimentos claros e pessoas preparadas para agir. O monitoramento precisa estar integrado a uma estrutura capaz de receber informações, avaliar a situação e mobilizar os recursos necessários conforme a natureza da ocorrência.
Agilidade e coordenação diante de uma ocorrência
Quando há suspeita de roubo, desvio ou desaparecimento de uma carga, a rapidez na comunicação é determinante para iniciar os procedimentos previstos. A centralização das informações e a articulação entre transportadora, embarcador, gerenciadora de riscos e demais responsáveis ajudam a estabelecer uma visão mais precisa do que aconteceu e das providências necessárias.
Nesse contexto, serviços de pronta resposta e centrais de emergência 24 horas podem apoiar o acionamento das equipes e a coordenação das medidas iniciais. O monitoramento mobile, por sua vez, pode contribuir para reunir informações sobre o deslocamento e identificar situações que exijam verificação.
A sindicância e a regulação de sinistros também integram a gestão posterior à ocorrência. A apuração dos fatos, a análise dos registros disponíveis e a organização das informações ajudam a esclarecer as circunstâncias do evento e a subsidiar as decisões dos envolvidos. Já a recuperação veicular pode fazer parte das ações destinadas à localização do veículo desaparecido, quando aplicável.
Essas ferramentas não eliminam o risco nem garantem a recuperação de uma carga. Sua contribuição está na capacidade de apoiar decisões, organizar a resposta e reduzir o tempo entre a identificação do problema e o início das providências. Para que funcionem de maneira coordenada, é necessário que as responsabilidades e os fluxos de comunicação estejam definidos antes de uma emergência.
Também é importante que as empresas observem os procedimentos legais e sanitários aplicáveis. No caso de medicamentos roubados, furtados ou extraviados, a comunicação às autoridades competentes não deve ser negligenciada, assim como os cuidados necessários para evitar que produtos cuja integridade não possa ser assegurada retornem indevidamente à cadeia de distribuição.
Segurança como responsabilidade de toda a cadeia
O roubo de cargas farmacêuticas exige uma abordagem que integre prevenção, monitoramento, resposta e apuração. Nenhuma ferramenta isolada é suficiente para enfrentar um problema que envolve desde o planejamento da viagem até a possível circulação irregular dos produtos após o crime.
Transportadores, embarcadores, distribuidores, operadores logísticos e empresas especializadas em gestão de ocorrências têm responsabilidades distintas, mas complementares. A troca de informações, a adoção de protocolos compatíveis e a comunicação rápida podem contribuir para tornar a operação mais preparada para situações adversas.
Diante da evolução dos roubos de medicamentos, o desafio é proteger a carga, o que significa também preservar a rastreabilidade, apoiar a integridade dos produtos e reduzir os efeitos de um crime sobre toda a cadeia de abastecimento. No transporte farmacêutico, essa responsabilidade tem uma dimensão adicional: contribuir para que medicamentos seguros e de procedência conhecida cheguem a quem precisa deles.



