A corrida pelos data centers exige uma nova visão sobre seguros

24/09/2026

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(*) Por Yuri Romão, CEO da Plury – O crescimento dos data centers e os investimentos em inteligência artificial estão criando uma nova fronteira para o mercado de seguros. Não apenas pelo valor dos prédios e equipamentos envolvidos, mas pela dimensão dos prejuízos que uma interrupção, um ataque cibernético ou uma falha tecnológica pode provocar.
Essas estruturas concentram servidores, sistemas elétricos, refrigeração, telecomunicações e grandes volumes de dados. Sustentam operações financeiras, serviços em nuvem, plataformas de comércio eletrônico, sistemas públicos e aplicações de inteligência artificial. Quando um data center para, o impacto não fica restrito ao local onde ocorreu o problema. Ele pode atingir simultaneamente empresas, fornecedores, clientes e serviços essenciais.
Por isso, proteger um empreendimento dessa natureza não significa apenas contratar uma apólice patrimonial. É necessário entender as dependências da operação, identificar vulnerabilidades e combinar diferentes coberturas para enfrentar riscos físicos, tecnológicos, operacionais e financeiros.
Essa discussão se torna ainda mais importante diante do avanço do setor no Brasil. Segundo o Latin America Data Center Report, da consultoria JLL, o país concentra aproximadamente 48% da capacidade instalada de data centers da América Latina e responde por cerca de 71% da capacidade em construção na região. Com a criação de incentivos específicos, a expectativa do governo é atrair centenas de bilhões de reais em investimentos nos próximos anos.
A oportunidade econômica é evidente. O Brasil possui escala de mercado, disponibilidade de energia renovável e posição estratégica para ampliar sua participação na infraestrutura digital mundial. Entretanto, quanto maior o número de estruturas e informações processadas, maior será também a exposição aos riscos.
Incêndios, falhas de energia, problemas nos sistemas de refrigeração, erros humanos, eventos climáticos e interrupções de fornecedores podem comprometer uma operação. No ambiente digital, invasões, vazamentos de informações, sequestro de dados e pedidos de resgate acrescentam uma camada ainda mais complexa ao problema.
Segundo o Relatório de Custo de uma Violação de Dados 2024, produzido pela IBM, o custo médio de um incidente desse tipo no Brasil chegou a R$ 6,75 milhões, com crescimento de 9% em relação ao ano anterior. A conta inclui muito mais do que a recuperação dos sistemas. Envolve perda de receita, paralisação das atividades, despesas jurídicas, responsabilização perante clientes, danos à reputação e possíveis sanções regulatórias.
A inteligência artificial também apresenta uma dupla realidade. Ao mesmo tempo que fortalece ferramentas de prevenção e identificação de ameaças, pode ser empregada para automatizar ataques, aperfeiçoar fraudes e explorar vulnerabilidades com maior velocidade.
Nesse cenário, o seguro precisa entrar no início do projeto, e não apenas quando a estrutura está pronta para operar. A avaliação deve acompanhar a escolha do local, a construção, a contratação de fornecedores, os protocolos de segurança, os planos de contingência e a capacidade de recuperação.
Um programa adequado pode reunir coberturas patrimoniais, riscos de engenharia, responsabilidade civil, interrupção de negócios, perda de receita, erros tecnológicos e incidentes cibernéticos. Sua estruturação depende, porém, de um diagnóstico técnico capaz de dimensionar quanto tempo a operação suporta permanecer indisponível, quais informações estão expostas e qual seria o impacto de uma falha sobre terceiros.
Não existe uma solução única para todos os data centers. Cada operação possui características, tecnologias, contratos e níveis de exposição diferentes. Comprar coberturas sem conhecer essa realidade pode criar uma falsa sensação de proteção e revelar lacunas justamente no momento de uma crise.
O Brasil começa a construir a infraestrutura necessária para ocupar um espaço relevante na economia da inteligência artificial. Para que esse avanço seja sustentável, o mercado de seguros também precisará evoluir, reunindo conhecimento técnico, capacidade financeira e uma leitura integrada dos novos riscos.
A corrida tecnológica não será vencida apenas por quem processar mais dados. Também dependerá de quem estiver mais preparado para manter suas operações funcionando quando algo sair do controle.