O brasileiro Herivelto Malosti comanda equipes que já repararam 16 mil veículos em uma única operação com método que dispensa repintura e preserva valor de revenda (PDR) – No segmento automotivo, o granizo historicamente foi tratado, sob a ótica do consumidor, como um causador de dano essencialmente estético, em que os amassados na lataria são percebidos como um contratempo pontual que produz alguma desvalorização no momento da revenda.
Para a indústria, porém, o impacto é de outra dimensão, especialmente diante da intensificação dos eventos climáticos extremos, inclusive em países onde esse tipo de ocorrência era historicamente raro, como no Brasil.
Tempestades atingem pátios inteiros de montadoras, comprometem milhares de veículos ainda não entregues, afetam estoques de concessionárias, travam operações logísticas e pressionam as carteiras das seguradoras.
“Hoje, uma única tempestade pode tirar milhares de carros da linha de venda”, afirma Herivelto Malosti, brasileiro reconhecido internacionalmente como referência em Paintless Dent Repair (PDR), com a única empresa brasileira do ramo com certificação ISO 9001 e uma das poucas homologadas por grandes montadoras. “O granizo virou gargalo operacional”, reforça.
Segundo ele, quando uma tempestade passa, o prejuízo não se resume aos carros amassados. Ele se mede em logística interrompida, na pressão sobre margens e no valor de mercado ameaçado antes mesmo de o veículo chegar ao cliente.
De forma paradoxal, esse cenário tornou-se também o impulsionador de um mercado bilionário especializado em reparação veicular de alta precisão.
“Esse mercado encontra-se em crescimento e cujo avanço acompanha uma mudança no comportamento do clima”, explica Herivelto Malosti. Dados de serviços meteorológicos no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos indicam que tempestades severas com granizo se tornaram mais frequentes e mais intensas na última década, com impacto sobre áreas urbanas e industriais, justamente onde se concentram polos automotivos e logísticos.
No Brasil, levantamentos do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) mostram um aumento consistente nos alertas para chuvas intensas com granizo, sobretudo nas regiões Sul e Sudeste, que concentram montadoras, centros de distribuição e grandes pátios de veículos.
Em janeiro de 2025, foram registrados mais de 600 episódios de granizo no país, uma alta de quase 295% em relação ao mesmo mês do ano anterior, segundo dados consolidados por serviços meteorológicos nacionais e plataformas privadas de monitoramento climático, com base em alertas oficiais e registros de eventos severos.
Nos Estados Unidos, o granizo figura entre os eventos climáticos extremos mais recorrentes e economicamente danosos. Estimativas de resseguradoras globais, com base em dados da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), apontam que tempestades de granizo geram cerca de US$ 10 bilhões em prejuízos anuais a propriedades.
Na Europa, o cenário segue a mesma tendência. Levantamento do European Severe Weather Database (ESWD), citado pela resseguradora Chaucer, contabilizou mais de 11.800 tempestades de granizo em um único ano recente (2024), mais que o dobro do volume registrado poucos anos antes.
Mercado bilionário
Pouco conhecido do grande público, o mercado global de reparos automotivos já opera em escala bilionária e vem sendo diretamente impactado pela intensificação dos eventos climáticos extremos.
Segundo a Grand View Research, o mercado global de automotive collision repair foi estimado em cerca de US$ 199 bilhões em 2023, com projeção de ultrapassar US$ 227 bilhões até 2030, impulsionado pelo crescimento da frota mundial e pelo aumento da frequência de sinistros, incluindo danos provocados por tempestades severas.
“Para efeito de comparação, uma grande tempestade pode causar, em poucas horas, mais danos do que meses inteiros de colisões urbanas”, afirma Herivelto.
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É nesse avanço do setor que o PDR (Paintless Dent Repair), técnica utilizada para a remoção de amassados sem necessidade de repintura ganha protagonismo. O segmento também mantém trajetória de crescimento. Segundo pesquisa da Dataintelo, a expectativa é de crescimento anual de 6,8%, com o mercado podendo alcançar US$ 7,7 bilhões até 2033.
“O problema não é apenas consertar o carro, é preservar seu valor”, explica Malosti. “Veículos novos que passam por repintura ou troca estrutural entram automaticamente em outra categoria de mercado. Perdem valor, garantia e atratividade comercial. Por isso o PDR muda esse jogo”.
Segundo o especialista, quando o método é aplicado por empresas homologadas, a garantia de fábrica é mantida, e o veículo segue no fluxo normal de venda. “Quando o reparo é bem executado, o carro continua sendo, na prática, zero quilômetro. Não há intervenção química, não há troca estrutural. A pintura é a mesma que saiu da fábrica. É como restaurar uma obra de arte sem alterar a tinta original”.
Do Brasil ao circuito global
A trajetória internacional de Malosti começou no fim dos anos 1990, com trabalhos para Renault, BMW e Nissan na Grécia. Depois disso, vieram projetos em quase 30 países.
Sua base empresarial está em Curitiba, com a única empresa do segmento no Brasil certificada pela ISO 9001. O know-how se estende pela Aralhm SRL, com operações na Itália, Estados Unidos, Alemanha, África do Sul e Brasil.
A experiência acumulada ao longo de quase três décadas também foi registrada no livro “Martelinho de Ouro Global”, em que Malosti relata os bastidores de operações internacionais de reparo automotivo e a evolução da técnica de PDR em diferentes mercados.
A obra reúne episódios vividos em grandes operações após tempestades de granizo, além de reflexões sobre formação profissional, precisão técnica e os padrões exigidos em intervenções realizadas diretamente em linhas industriais e pátios logísticos.
“O martelinho de ouro sempre foi visto como um trabalho artesanal, mas hoje estamos falando de uma operação global, que envolve indústria, logística, seguradoras e tecnologia. É uma profissão que evoluiu muito e que ainda vai crescer”, afirma.
Foto: Herivelto Malosti