(*) Por: Rodolfo Armando A. Pereira é especialista em agrometeorologia da Picsel * – Em um cenário de maior variabilidade climática, previsões de tempo e clima passaram a influenciar diretamente decisões econômicas no campo. Planejamento de safra, compra de insumos, gestão financeira, contratação de crédito e estratégias de comercialização dependem, cada vez mais, da interpretação dos possíveis caminhos que o clima da próxima safra pode tomar. Nesse contexto, cresce também a responsabilidade sobre a forma como fenômenos climáticos são comunicados ao setor produtivo. O debate recente em torno de um possível “Super El Niño” para a safra 2026/2027 evidencia justamente os riscos de transformar projeções probabilísticas em certezas antecipadas.
Há evidências consistentes de formação de um evento de El Niño ao longo do segundo semestre de 2026. No entanto, ainda é prematuro afirmar que o Brasil enfrentará um “Super El Niño”. Pela definição do ECMWF, esse cenário extremo ocorre quando as anomalias de temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial superam +2 °C. Alguns modelos climáticos apontam nessa direção, mas os próprios centros meteorológicos internacionais ainda trabalham com elevada incerteza. A NOAA, por exemplo, atribui cerca de 36% de probabilidade para um evento dessa magnitude entre novembro e janeiro.
Existe ainda um aspecto técnico pouco discutido fora do meio científico: as limitações inerentes à previsibilidade climática em horizontes mais longos. Os cenários mais intensos projetados para o fenômeno concentram-se justamente no final do ano, um horizonte de previsão longo onde aumenta-se a incerteza. Soma-se a isso a chamada Spring Predictability Barrier, uma limitação reconhecida na modelagem do ENOS que reduz a confiabilidade das previsões iniciadas no outono para o hemisfério sul. Ignorar essas restrições cria uma percepção equivocada de precisão que a própria ciência não sustenta neste momento.
Outro erro recorrente é transformar automaticamente um fenômeno climático global em impactos lineares sobre a produção agrícola. Na prática, os efeitos observados em campo dependem de uma interação muito mais complexa entre distribuição temporal das chuvas, variabilidade regional, características de solo e estratégias de manejo adotadas pelo produtor. Embora o padrão climático do El Niño historicamente aumente a probabilidade de chuvas mais intensas no Sul do Brasil e de redução das precipitações em partes do Norte e Nordeste, ainda não existem dados científicos que justifiquem afirmações categóricas sobre “chuvas catastróficas” ou “estiagem histórica” para a próxima safra.
A discussão mais relevante para o setor deveria estar concentrada em mitigação de risco e adaptação produtiva. Pesquisadores da Embrapa destacam que, em cenários de excesso hídrico, preservar a palhada e evitar intervenções mecânicas que comprometam a estrutura do solo são medidas importantes para reduzir erosão e perdas operacionais. Já em condições de menor volume de chuva, a manutenção da cobertura vegetal torna-se ainda mais estratégica para conservação da umidade, enquanto o cultivo prévio de espécies com sistema radicular profundo favorece a infiltração da água no perfil do solo.
A escolha de cultivares mais tolerantes ao excesso ou à escassez hídrica também amplia a resiliência das lavouras. Além disso, o escalonamento da semeadura reduz a exposição simultânea das áreas agrícolas aos períodos climáticos mais críticos. Nesse contexto, seguir as recomendações do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) continua sendo uma das ferramentas mais sólidas disponíveis para suporte à tomada de decisão no campo, independentemente da ocorrência de El Niño ou La Niña.
À medida que eventos climáticos extremos ganham relevância econômica e social, a qualidade da informação climática também passa a ter impacto direto sobre a capacidade de adaptação do setor produtivo. O agro brasileiro já convive historicamente com elevada variabilidade climática. O desafio agora é ampliar a capacidade de interpretar risco com maior precisão técnica, evitando tanto o negacionismo quanto o alarmismo. Em um ambiente cada vez mais condicionado por extremos climáticos, informação responsável deixou de ser apenas comunicação científica e passou a ser parte estratégica da resiliência produtiva.”
* Dr. Rodolfo Armando A. Pereira é especialista em agrometeorologia da Picsel. Bacharel em Ciências Atmosféricas pela UNIFEI, mestre e doutor em Engenharia de Sistemas Agrícolas pela ESALQ/USP, com MBA em Data Science e Analytics pela USP. Atuou como pesquisador colaborador na Embrapa Agricultura Digital, integrando o grupo do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC). Atualmente desenvolve soluções de gestão de risco climático no setor privado, com foco em modelagem de culturas e inteligência agrometeorológica aplicada à tomada de decisão no campo.



